quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Tão longE

Tão longe ando de ti!

Sempre que volto sinto esta enorme incapacidade de escrever seja uma linha. Porquê?
O que mudou? Cansaço? A vida!

Não te esqueci. Não te quero esqueçer por isso venho aqui dizer: PRESENTE.
Existes em mim.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

FotografiA

Hoje tirei uma fotografia.
O mar estava calmo mas tu não.
Captei e detive o teu olhar nesta película que agora revelo.
Não gostaste que te prendesse nesse momento. É sempre assim!
Somos diferentes.
Eu gosto de fotografia porque cada fotografia que tiro faz parte da verdade de um momento.
A fotografia de hoje, por exemplo, é o testemunho do que escrevo.
Ficas sempre desinquieto quando te tiro uma fotografia. Vês? Apanhei esse gesto inegável de falsa aquietação tão característico de ti. Conheço-te tão bem!
Logo quando te mostrar o que agora no papel se vai definindo vais dizer: não gosto.
Sabes? Não me enganei, ficou linda.
Que instante!
Dou-te o que à bocado, junto ao mar calmo, te tirei.

Novembro 2007

quarta-feira, 23 de junho de 2010

AmoR


Pelo S. João, um rapaz deu-me um cravo branco!
Pelo Natal, quando punha a toalha de linho na mesa,
cheiravam ainda a cravo as minhas mãos!

Matilde Rosa Araújo

foto retirada das imagens do google
autor: ?

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Passado, Presente, FuturO


Eu fui. Mas o que fui já me não lembra:

Mil camadas de pó disfarçam, véus,

Estes quarenta rostos desiguais.

Tão marcados de tempo e macaréus.



Eu sou. Mas o que sou tão pouco é:

Rã fugida do charco, que saltou,

E no salto que deu, quanto podia,

O ar dum outro mundo a rebentou.



Falta ver, se é que falta, o que serei:

Um rosto recomposto antes do fim,

Um canto de batráquio, mesmo rouco,

Uma vida que corra assim-assim.



José Saramago
(1922-2010)

domingo, 25 de abril de 2010

FalA

Fala a sério e fala no gozo
Fá-la pela calada e fala claro
Fala deveras saboroso
Fala abarato e fala caro

Fala ao ouvido fala ao coração
Falinhas mansas ou palavrão

 
Fala à miúda mas fá-la bem
Fala ao teu pai mas ouve a tua mãe

 
Fala francês fala béu-béu

 
Fala fininho e fala grosso
desentulha a garganta e levanta o pescoço

 
Fala como se falar fosse andar
Com elegância muita e devagar

Alexandre O´Neill


foto: edward weston

domingo, 21 de março de 2010

A Essência da PoesiA

Não aprendi nos livros qualquer receita para a composição de um poema; e não deixarei impresso, por meu turno, nem sequer um conselho, modo ou estilo para que os novos poetas recebam de mim alguma gota de suposta sabedoria. Se narrei neste discurso alguns sucessos do passado, se revivi um nunca esquecido relato nesta ocasião e neste lugar tão diferentes do sucedido, é porque durante a minha vida encontrei sempre em alguma parte a asseveração necessária, a fórmula que me aguardava, não para se endurecer nas minhas palavras, mas para me explicar a mim próprio.


Encontrei, naquela longa jornada, as doses necessárias para a formação do poema. Ali me foram dadas as contribuições da terra e da alma. E penso que a poesia é uma acção passageira ou solene em que entram em doses medidas a solidão e solidariedade, o sentimento e a acção, a intimidade da própria pessoa, a intimidade do homem e a revelação secreta da Natureza. E penso com não menor fé que tudo se apoia - o homem e a sua sombra, o homem e a sua atitude, o homem e a sua poesia - numa comunidade cada vez mais extensa, num exercício que integrará para sempre em nós a realidade e os sonhos, pois assim os une e confunde.



E digo igualmente que não sei, depois de tantos anos, se aquelas lições que recebi ao cruzar um rio vertiginoso, ao dançar em torno do crânio de uma vaca, ao banhar os pés na água purificadora das mais elevadas regiões, digo que não sei se aquilo saía de mim mesmo para se comunicar depois a muitos outros seres ou era a mensagem que os outros homens me enviavam como exigência ou embrazamento. Não sei se aquilo o vivi ou escrevi, não sei se foram verdade ou poesia, transição ou eternidade, os versos que experimentei naquele momento, as experiências que cantei mais tarde.


De tudo aquilo, amigos, surge um ensinamento que o poeta deve aprender dos outros homens. Não há solidão inexpugnável. Todos os caminhos conduzem ao mesmo ponto: à comunicação do que somos. E é necessário atravessar a solidão e aspereza, a incomunicação e o silêncio para chegar ao recinto mágico em que podemos dançar com hesitação ou cantar com melancolia, mas nessa dança ou nessa canção acham-se consumados os mais antigos ritos da consciência; da consciência de serem homens e de acreditarem num destino comum.


Pablo Neruda,
in´Nasci para Nascer
(Discurso na entrega do Prémio Nobel)
 
 

foto de Pablo Neruda
autor: ?

sexta-feira, 19 de março de 2010

Hoje é diA...


Em  31 de Agosto de 2008  postava assim .

(porque Pai é aquele que tem filhos, hoje, também é dia dos filhos que têm Pai)

Father and son to remember...


domingo, 7 de março de 2010

Chamem-me ursa que eu não me importO



Em Novembro (30) de 2008 publicava  hibernatione .
Em Novembro tudo bem, para alguns será normal, mas em Março continuar a sentir o mesmo...não!

Sou de Abril (1). Gosto de sol (muito).
O sol aquece-me, alimenta-me e dá-me a energia que preciso.
O sol ilumina indicando-me o caminho, apontando-me o destino.
Nasci em Abril.

Este ano ando assim a meio tempo, a meio gás, a meio dia,...
Estou muito cansada deste tempo que me faz passar por este estado de entorpecimento.

Chamem-me ursa que eu não me importo!
     (se bem que ursinha é mais carinhoso...)

quinta-feira, 4 de março de 2010

na hora de pôr a mesa, éramos cinco

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:

o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs

e eu. depois, a minha irmã mais velha

casou-se. depois, a minha irmã mais nova

casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,

na hora de pôr a mesa, somos cinco,

menos a minha irmã mais velha que está

na casa dela, menos a minha irmã mais

nova que está na casa dela, menos o meu

pai, menos a minha mãe viuva. cada um

deles é um lugar vazio nesta mesa onde

como sozinho. mas irão estar sempre aqui.

na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.

enquanto um de nós estiver vivo, seremos

sempre cinco.

José Luís Peixoto


segunda-feira, 1 de março de 2010

Ameixeira de jardiM

No meu pedacinho de terra tenho uma ameixeira de jardim.
Hoje, entre um minuto e um outro, fui até lá para a fotografar.
Contra todos os ventos e torrentes a minha ameixeira já está florida.

foto: MAria tardIA

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Sentenças delirantes dum poeta para si próprio em tempo de cabeças pensanteS

1
Não te ataques com os atacadores dos outros.


Deixa a cada sapato a sua marcha e direcção.
O mesmo deves fazer com os açaimos.


E com os botões.


2
Não te candidates, nem te demitas. Assiste.
Mas não pense que vais rir impunemente a sessão inteira.
Em todo o caso fica o mais perto possível da coxia.

3
Tira sempre as rodas ao peixe congelado,
mas sempre na tua mão.
Depois, faz um berreiro.
Quando estiveres bastante gente à tua volta,
descongela a posta e oferece um bocado a cada um.

4
Não te arrimes tanto quanto à ideia de que haverá sempre
um caixote com serradura à tua espera.
Pode haver. Se houver, melhor…


Esta deve ser a tua filosofia.


5
Tudo tem os seus trâmites, meu filho!
Não faças brincos de cerejas
sem te darem, primeiro, as orelhas.
Era bom que esta fosse, de facto, a tua filosofia.


6
Perguntas-me o que fazer com a pedra que
te puseram em cima da cabeça?
Não penses no que fazer com. Cuida no que fazer da.


É provável que te sintas logo muito melhor.


Sai, então, debaixo da pedra.


7
Onde houver obras públicas não deponhas a tua obra.
Poderias atrapalhar os trabalhos.
Os de pedra sobre pedra, entenda-se.


Mas dá sempre um «Bom Dia!» ao pessoal do estaleiro.
Uma palavra é, às vezes, a melhor argamassa.


8
Deves praticar os jogos de palavras, mas sempre
com a modéstia do cientista que enxertou em si mesmo
a perna da rã, e que enquanto não coaxa, coxeia.
Oxalá o consigas!


9
Tens um glorioso passado futurível,
mas não fiques de colher suspensa,
que a sopa arrefece.


10
Se tiveres de arranjar um nome para uma personagem
de tua criação, nunca escolhas o de Fradique Mendes.
A criação literária não frequenta o guarda-roupa,
muito menos quando a roupa tem gente dentro.


11
Resume todas estas sentenças delirantes numa única
sentença;
um escritor deve poder mostrar sempre a língua portuguesa.

Alexandre O’Neill

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

VoaR

Eu queria ser astronauta, o meu país não deixou.
Depois quis ir jogar à bola, a minha mãe não deixou.
Tive vontade de voltar à escola, mas o doutor não deixou.
Fechei os olhos e tentei dormir, aquela dor não deixou.

 
Ó meu anjo da guarda, faz-me voltar a sonhar
Faz-me ser astronauta, e voar

 
O meu quarto é o meu mundo, o ecrã e a janela.
Não choro em frente à minha mãe, eu que gosto tanto dela.
Mas esta dor não quer desaparecer, vai-me levar com ela

 
Ó meu anjo da guarda, faz-me voltar a sonhar
Faz-me ser astronauta, e voar


Acordar, meter os pés no chão
Levantar pegar no que tens mais à mão.

 
Voltar a rir. Voltar a andar.

Voltar... Voltar...


Voltarei... Voltarei...
Voltarei... Voltarei...


Tim

 

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Já fizeste isto melhoR

Here I

this is me

A noite de Sexta para Sábado foi passada a escrever mentalmente este e outros post.
A coragem para me levantar e redigir esses pensamentos faltou.
O começo do dia de hoje ditou uma pressa surpreendentemente apaziguada pela leitura de um livro deixado por uma amiga. Sobre o livro poderei falar noutra altura porque esta requer o tal desenvolvimento memorizado naquela madrugada.

Sim,  here I,this is me assim como me lêem hoje.
Um dos medos que tenho é o da perda de capacidades, aptidões, competências, faculdades. A perda. Sendo a perda inevitável não nos deveria sequer tirar horas de descanso mas antes facultar energia suficiente para manter e melhorar o que, mais cedo ou mais tarde, se perderá.
Era tão bom que a vida fosse assim um discurso lógico!

Para aquele jantar fiz um prato que já há algum tempo não fazia. Para mim estava bom, talvez com um pouco menos de sal ficasse melhor...a verdade é que como tinha pouco tempo abri uma embalagem de molho béchamel em vez de, como é costume, o fazer... houve quem referisse a presença pouco habitual de espinafres naquele prato...Insisto em procurar desculpas.
Ter ouvido Já fizeste isto melhor  fez-me pensar em muito mais do que aquele momento!


A verdade é que inevitavelmente vou perdendo capacidades que anteriormente ignorava talvez por as achar adquiridas para toda a vida.



quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Conviver sem inibiçõeS

Ninguém é um bloco de harmonia.

Todos nós temos medo de alguma coisa ou sentimo-nos limitados em algo. Precisamos todos de alguém para conversar. Seria bom se falássemos uns com os outros...não apenas conversas de circunstãncia, mas sem reservas, desinibidamente. Não deveríamos ter tanto receio, porque na verdade a maioria das pessoas gosta desse contacto: o facto de se revelar vulnerável, deixa as pessoas em liberdade para demonstrarem também a sua vulnerabilidade.

É mais fácil conviver quando desafivelamos as máscaras e as deixamos cair.

Liv Ullman


foto de Liv Ullman autor: ?

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

está explicado

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Há já algum tempo andava com umas questões em aberto... a questão, por exemplo, do elevado consumo de papel higiénico nos WC dos meus filhos. Juntando a esta, outra questão, o tempo indeterminado que o meu filho mais novo passa no seu aposento preferido...
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Passo, é verdade, alturas em que não entro nestas divisões (esta foi uma opção minha que daria para outra história). A limpeza das mesmas ficou a cargo dos seus utilizadores e, da senhora a quem pago bem à hora, para vir um dia por semana limpar a casa. Ontem foi um desses dias (imagino agora se não fosse...)
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Porque existem mais questões (por exemplo a questão da roupa suja que fica de uma semana para a outra para lavar...) fui à procura da dita nos quartos e nos WC quando, de uma acentada só, encontrei as respostas a, pelo menos, três destas questões...
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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

El corazón mandA

foto: minha Córdoba Agosto 2009
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Uma das coisas que fiz nesta pausa foi viajar.
Saí.
Saí daqui (o que me deu uma ideia de liberdade muito maior do que esperara)...saí desta cidade, de corpo e alma, de alma e coração, por me sentir asfixiar.
As muralhas que cercam esta linda cidade onde vivo ainda respiram e, continuam a servir para defesa do que alguns (quantos?) consideram defensável.
Estas muralhas que cercam esta bela cidade onde vivo suprimem-me a respiração e a circulação de sangue, por isso, saí de corpo e alma, de alma e coração.
Foi em Córdaba que me reencontrei.
Curiosamente alguém que me acompanhava foi tocado por esta mesma imagem.
Registei o momento.
Afinal:
El corazón mandA

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Are you readY...?

As pausas por vezes são necessárias.
Quero ver se recomeço.
Saudosos anos 80. Lloyd cole and the commotions...
Interrugação actual: are You Ready To Be Heartbroken?
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lloyd cole and the commotions
'Are You Ready To Be Heartbroken?' live, 1985
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domingo, 26 de julho de 2009

03.06.

Todas as manhãs ela chega baixamente altiva na segurança que aquele homem lhe dá.
Fazendo juízo de valores: aqui passam míseros enganos e vidas estragadas.

02.06.

Brisa forte agradavelmente fresca.
Foi necessário passarem trinta anos para desfrutar deste sitio, anteriormente vedado por preconceitos e pessoas que nele, muitas vezes, permaneciam à minha passagem.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

O secreto desejo

Um desejo feito de asa
Ou de leve brisa acesa
Entrou-me de noite em casa.
E achou minh´alma indefesa.
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(O secreto desejo
É mais leve que o vento.)
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Lutaram por longas horas
Até vir a madrugada
Ao fim dessas longas horas
Minh´alma foi derrotada.
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(O secreto desejo
É mais ágil que a espada.)
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Passou a viver em mim
Fechado como num cofre,
A tentar ser ele o fim
Pelo qual minh´alma sofre.
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(O secreto desejo
É mais forte que a morte.)
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Luís de Macedo

sábado, 4 de julho de 2009

PaisageM

Não quero grandes paisagens
De infinitos abstractos

Montanhas? Só em retratos
Que convidam a viagens.

Rios? Também não quero.
São falsos, pois são pequenos.
Carros de bois gemendo fenos.
Mimavam-me de desespero.


Mar! Sempre mar.
Na minha frente!


Nos meus sentidos:
Maré a encher
E a vagar!


Mar só mar
Nos meus ouvidos!

Oh! Amorável tela
De paisagem descontente!
E no poente
Pouco mais do que uma vela!

Henrique Segurado


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foto: minor white

terça-feira, 30 de junho de 2009

ConselhO

Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda, como um fruto
ao passar o vento que a mereça.


Eugénio de Andrade
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foto: Edward Weston

segunda-feira, 22 de junho de 2009